Out 19

Jamil Chade

Veja

Criado para zelar pelos direitos fundamentais no mundo, órgão é controlado por ditaduras e governos que ignoram suas responsabilidades na defesa da liberdade. Quem entra pela sala do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, tem de passar por um raio-X, num procedimento parecido ao de um aeroporto. Ativistas, defensores, indígenas, jornalistas e vítimas são convidados a dar garantias de que, ao entrar num local quase sagrado, irão adotar postura digna dos valores que são defendidos naquela sala. Em suas cabeças, um teto multicor criado por um artista espanhol que tenta recriar a gruta de onde sairia a Humanidade.

Seu preço: US$ 30 milhões, numa obra que já passou a ser conhecida como a "Capela Sistina da ONU". Aquela caverna seria a metáfora de uma ágora, o primeiro local de encontro dos humanos, a grande árvore africana sob a qual as pessoas se sentavam para falar e o único futuro possível: o diálogo. Para ter acesso ao "diálogo", porém, a caverna é um dos raros locais na sede da ONU em Genebra que exige tal procedimento de segurança. Claro, o raio-X só não é aplicado para os embaixadores, que entram livremente e gozam de suas credenciais para justificar tal privilégio.

Ao fazer a fila para o controle de segurança e ver como andam apressados os diplomatas sírios, venezuelanos, turcos ou da Coreia do Norte, sempre pensei: que sistema é esse que permite representantes de ditaduras, assassinos e repressores a entrar livremente, enquanto as vítimas são as que são alvo de desconfiança dos seguranças?

Nesta semana, a ONU elegeu os novos membros do Conselho, órgão que serve de guia para a defesa dos direitos humanos no mundo. Mas no bastião dos direitos fundamentais, estarão uma vez mais sentando para tomar a palavra, votar e fazer propostas, justamente as autoridades responsáveis pelos crimes.

Pela África, por exemplo, um dos países eleitos foi o Sudão, marcado por um regime que não aceita abrir mão do poder, mesmo depois da queda de Omar al Bashir. Também terão vaga no órgão Somália e Líbia, dois Estados falidos e com enormes denúncias de violações diárias de direitos humanos. Outro africano na sala é a Mauritânia, acusada de ainda manter 500 mil pessoas numa espécie de semiescravidão. Locais problemáticos como o Togo, República Democrática do Congo e Eritreia também fazem parte do órgão, erguendo com orgulho a placa com o nome de seus países para defender os direitos de milhões de pessoas pelo mundo. Na Ásia, os representantes não são nenhum modelo de democracia e direitos humanos.

Depois de prometer matar traficantes, o presidente filipino, Rodrigo Duterte, conseguiu uma vaga para seu país como membro do Conselho. Bahrein, Catar, Fiji, Afeganistão e Paquistão também estão entre os governos cujo objetivo é zelar pelos direitos humanos, entre eles a liberdade religiosa e a liberdade de expressão.

Nas Américas, nem as denúncias de repressão feitas pela própria ONU, a fome e o colapso das instituições democráticas impediram que os países elegessem a Venezuela de Nicolas Maduro ao órgão. Ao seu lado, estará o governo de Jair Bolsonaro, acusado pelas Nações Unidas de promover um encolhimento do espaço democrático, abandonar os indígenas e outras populações vulneráveis. Mesmo na Europa, países que sofrem fortes denúncias como a Armênia e Polônia também ganharam seu lugar no debate. Varsóvia, ao lado dos tchecos, ainda indica que irá promover uma agenda ultraconservadora no que se refere à família tradicional. Não haveria um problema com tal postura se não fosse pelo fato de que, ao tomar tal caminho, esses governos se recusam a lidar com as violações e abusos que sofre comunidade LGBT.

Parte significativa do Conselho de Direitos Humanos está nas mãos de governos que não passariam em qualquer tipo de critério de respeito às liberdades fundamentais. Mas por qual motivo desejaria um detentor de armas participar de uma marcha pelo desarmamento e pela paz? Ou uma empresa de chocolate promover a luta contra o açúcar? Por qual motivo um violador de direitos humanos gostaria de estar exposto em tal órgão? Existem pelo menos dois motivos. O primeiro é o de se blindar de ataques, votando contra resoluções que o questione e liderando grupos de países para derrubar propostas incômodas. Mas também existe o interesse de que, dentro do órgão, o governo consiga determinar a agenda dos debates e apresentar temas de seu interesse. Não, obviamente, do interesse da vítima.

Hoje, essas ditaduras que buscam um lugar ao Sol contam com as regras ao seu lado: não existem critérios para fazer parte do Conselho. Basta conseguir os votos necessários e, nesta corrida, o que vale é um outro aspecto das relações internacionais: poder. As normas apenas estipulam que cada região deve apresentar seus candidatos ao Conselho. Mas ai o sistema cai em uma armadilha: para jamais ter de concorrer em público contra um vizinho, um acordo é fechado para que apenas seja apresentado o número exato de países para cada uma das vagas a ser preenchida. Assim, não cabe outra solução para a Assembleia Geral da ONU a escolher aqueles que se apresentaram. Sem concorrência e sem disputa para saber quem é que merece estar num órgão de direitos humanos. Quando há uma concorrência, ela é mínima ou apenas de fachada. No caso da América Latina, o governo da Costa Rica se apresentou ao pleito de forma improvisada e faltando poucos dias para o voto. Ainda assim, eram três candidatos para duas vagas. É assim, portanto, que o novo Conselho foi formado e será como resultado dessas imoralidades que os corredores da ONU continuarão a ouvir discursos sem qualquer relação com os crimes que estão ocorrendo.

Com seus carros negros e motoristas esperando na porta, embaixadores mascaram objetivos de poder com discursos e resoluções que exploram o sofrimento das vítimas. E quando sauditas afirmam estar preocupados com a situação das mulheres no mundo, quando o governo líbio garante que age de acordo com a lei, quando Venezuela diz que todos comem no país ou quando Cuba insiste que a democracia está viva naquela ilha, não há ninguém que se levante para protestar e dizer um simples basta. Quando é a vez da sociedade civil falar, são limitados a discursos de apenas alguns segundos cada, e no final do debate para não atrapalhar. Se elevam a voz contra aqueles que cometem crimes, são alertados para que respeitem os códigos do local. Não há espaço para ofensas. Quem sai da linha é expulso e tem sua credencial banida. Afinal, não se pode tolerar o desrespeito.

Há quem alerte que o sistema já faliu. Que não há como respeitar um órgão de direitos humanos com tais membros. Uma das soluções seria a criação de critérios pelos quais os países teriam de cumprir para poder ser eleito. Mas os mais pragmáticos - e não menos cínicos - alertam que se houvesse um critério, difícil seria encontrar um país que mereça estar num órgão de defesa de direitos humanos, inclusive aqueles na Europa e América do Norte. Há quem defenda - e com razão - que a comunidade internacional apenas vai caminhar se os avanços em direitos humanos ocorrerem graças à cooperação, e não a denúncias.

Uma vez mais, porém, essa estratégia é manipulada por governos para retardar ao máximo qualquer tipo de transformação em seus regimes. Serve então tal Conselho para alguma coisa? Provavelmente sim e a prova disso é que essas ditaduras são as primeiras que querem estar presentes para impedir seu funcionamento adequado. No fundo, sabem que aquele órgão poderia ser uma arma fundamental nas mãos das vítimas para envergonhar governos e exigir mudanças. E, justamente para evitar seu funcionamento é que o Conselho hoje é ocupado por ditadores e seus aliados.

 

Com três reuniões por ano, cada sessão do Conselho termina praticamente da mesma forma. A aprovação de resoluções com um impacto questionável sobre a vida das vítimas e uma tradição: uma festa entre todos os diplomatas que vara a noite e que ajuda a descarregar - em copos de tequila, rum ou uísque - a hipocrisia de um teatro diplomático. Quanto às vítimas de sérios abusos de direitos humanos? Bem, elas podem esperar até a próxima sessão.... 

 
Jun 04
Bolívar Lamounier, O Estado de S.Paulo

 

 

 

Duvido que algum país tenha um número de irresponsáveis por metro quadrado comparável ao nosso. Baseando o cálculo só no circuito institucional sediado em Brasília, excluindo o resto do País, nossa vantagem sobre o resto do mundo nesse quesito deve ser acachapante.

Para bem aquilatarmos a extensão da coisa, tanto faz começarmos pelo lado grotesco – lagostas, vinhos de qualidade, auxílio-paletó, auxílio-moradia – ou pelo lado teratológico, quero dizer, pelo contingente de 26 milhões de pessoas sem trabalho, por nosso sistema educacional, horroroso nos três níveis, pela corrupção de proporções amazônicas, pela taxa de homicídios subindo de patamar e agora, para nosso infinito espanto, pelo rompimento de barragens causando danos irreparáveis a algumas de nossas mais importantes bacias hídricas. Culpa de Deus? Não, culpa da ignorância técnica, da falta de fiscalização e do desprezo pela natureza e pela vida das coletividades que vivem nas proximidades. A verdade é uma só: a desigualdade social e o desmazelo generalizado estão nos tornando um país estúpido, violento e cruel.

Se nossa renda por habitante crescer 1,5% este ano (o que não é trivial) e essa taxa se mantiver por um longo período, levaremos 47 anos para dobrá-la e alcançar o nível que Portugal já hoje desfruta. Repito: 47 anos. Essa projeção macabra deveria ser suficiente para mudar as atitudes e padrões éticos dos donos do poder. Deveria ser uma espada de Dâmocles obrigando os três Poderes a se levarem mais a sério e a tratar com respeito os 207 milhões de habitantes deste país “abençoado por natureza”. O que vemos acontecer diuturnamente em Brasília dista anos-luz desse mandamento elementar.

 

Só consigo compreender a lerdeza (pirraça, fisiologismo, falta de vergonha...) com que a reforma da Previdência é tratada por grande parcela do Congresso a partir da ignorância de muitos a respeito do futuro que nos aguarda. A referida parcela simplesmente não compreende que essa reforma é apenas o primeiro passo numa dura série de mudanças que teremos que fazer, de um jeito ou de outro. De reformas muito mais drásticas do que essa que temos sobre a mesa poderá depender, quem sabe, até nossa sobrevivência como entidade nacional integrada.

Não me deterei nos prós e contras do governo Bolsonaro, assunto martelado diariamente na imprensa e nas redes sociais. Não sei se ele adotará ou não um estilo consentâneo com a magistratura a que foi alçado e com a gravidade da crise em que os governos anteriores nos meteram. Quero apenas lembrar que a eleição já passou, que os palanques já foram ou deveriam ter sido desmontados e que a presente hora tem de ser de distensão e pacificação, não de mais acirramento.

A História do Brasil não é o oito ou oitenta que tantos se comprazem em trombetear. Erramos muito, mas também acertamos bastante. Tivemos muito azar em algumas ocasiões, mas outras houve em que Deus deu realmente a impressão de ser brasileiro. Veja-se a preservação da integridade territorial, que nos proporcionou esse que talvez seja o maior dos nossos ativos: nossa dimensão continental. É certo que, em nosso caso, a unidade não foi suficiente para alicerçar um mercado interno robusto; seria demais esperar isso no nível de pobreza prevalecente quando nos livramos do regime colonial. De 1930 a 1980, nossa economia cresceu vigorosamente. Naquele período poderíamos ter constituído um mercado interno respeitável e não o fizemos, agora, sim, por uma imperdoável sequência de erros, a começar pelo modelo de crescimento concentrado no Estado, trampolim para a obscena consolidação de uma casta patrimonialista no topo da pirâmide política, reforçada pela trincheira geográfica que Brasília passou a proporcionar-lhe.

Parece-me, pois, que o alfa e o ômega da irresponsabilidade política brasileira é essa incapacidade infantil de perceber o inferno a que inexoravelmente chegaremos se reformas drásticas não forem efetivadas. Um ponto de partida conveniente para quem tiver ânimo e coragem para abrir os olhos é relembrar o que aconteceu nas três últimas décadas do século 19 nos três casos clássicos de “industrialização tardia” – ou seja, na Alemanha, no Japão e nos Estados Unidos. Firmar a unidade territorial e construir um poder central digno de respeito foram a condição sine qua non para constituir o mercado interno, base do crescimento industrial acelerado que esses três países conheceram. A Alemanha, além de uma reforma administrativa admirável, iniciada no começo do século 19, levou a cabo a unificação em 1870. Sob a égide da Prússia e a liderança de Bismarck, os 40 principados então existentes se uniram no que viria a ser uma formidável potência industrial. No Japão, a restauração da dinastia Meiji levou ao poder uma nova elite que rapidamente quebrou o sistema feudal, desarmou a corporação dos samurais, padronizou o sistema educacional em nível nacional e abriu rapidamente o país para o exterior, em busca de tecnologia. Não menos impressionante, nos Estados Unidos a drástica reorientação do sistema educacional no sentido tecnológico, por meio dos land-grant colleges, e a sangrentíssima guerra de 1861-1865 contra o sul escravocrata fincaram os pilares do espetacular crescimento econômico na quarta parte do século.

No Brasil, a dificuldade é escolher qual o melhor exemplo de infantilidade e irresponsabilidade. Minha inclinação é a organização partidária. A proliferação desabrida não seria tão grave se o resultado dela fosse apenas nominal, mas não é o caso: analisada como um número de partidos efetivos, nossa estrutura partidária é, nada mais e nada menos, a mais fragmentada do planeta.

Vinte e seis milhões de pessoas sem trabalho ficam sem saber se é para rir ou para chorar.

*SÓCIO-DIRETOR DA AUGURIUM CONSULTORIA, É MEMBRO DAS ACADEMIAS PAULISTA DE LETRAS E BRASILEIRA DE CIÊNCIAS E AUTOR DO LIVRO ‘DE ONDE, PARA ONDE: MEMÓRIAS’ (EDITORA GLOBAL)

Mai 20
BOLÍVAR LAMOUNIER*, O Estado de S.Paulo

 

 

 

Em 1958, quando publicou Os Donos do Poder (Editora Globo), mestre Raymundo Faoro introduziu o conceito de patrimonialismo, estabelecendo por meio dele a mais clássica das clássicas interpretações da História brasileira.

Mas, parafraseando Ortega y Gasset, podemos dizer que toda grande obra é ela mesma e sua circunstância. Nós, leitores preguiçosos, lemos o título e deixamos de lado o subtítulo do livro. Neste – Formação do Patronato Político Brasileiro – Faoro esclareceu melhor o sentido de seu trabalho. O Estado patrimonialista deitava raízes na era medieval portuguesa, mas Faoro quis manter a dignidade do substantivo formação. Nós, imbuídos da ideologia desenvolvimentista que à época emergia com todo o vigor, não quisemos perceber o paradoxo que o grande historiador gaúcho ali deixara, de caso pensado. Otimistas, só queríamos pensar no futuro e acreditávamos piamente que a industrialização liquidaria todos os resquícios do passado colonial. Portanto, o próprio patrimonialismo haveria de fenecer naturalmente. Morreria de morte morrida logo que as chaminés das fábricas de São Paulo enchessem o céu com sua espessa fumaça. Não nos passou pela cabeça que o Estado patrimonialista era uma estrutura poderosa, capaz de resistir a pressões contrárias à sua índole.

De nossa incapacidade de perceber a resiliência do patrimonialismo decorreram vários equívocos, o mais óbvio dos quais é que ele simplesmente se recusou a morrer. Está aí, perceptível a olho nu, agigantado e cada vez mais forte. Seu hábitat natural é, obviamente, Brasília, onde, sem dificuldade alguma, seus tentáculos sufocam e interligam os três Poderes. Estado patrimonialista, uma estrutura que vive em função de si mesma, que persegue os objetivos que ela mesmo escolhe, e o faz distribuindo o grosso da riqueza e as melhores oportunidades de ganho entre os “amigos do rei”. É certo que admite novatos, mas por cooptação, não como protagonistas autônomos, como bem explicou Simon Schwartzman no também clássico Bases do Autoritarismo Brasileiro(Editora da Unicamp).

 

Do equívoco que acima enunciei no atacado, penso que três outros merecem ser abordados no varejo: somos um país sem elites autônomas, sem classe média e sem partidos políticos.

Teríamos elites autônomas se as tivéssemos fora do Estado, capazes de balizar as ações do núcleo estatal, impelindo-o a levar mais em conta o que, para abreviar, chamarei de bem comum. Os poderosos “de dentro do Estado” obviamente não são elites no sentido que acabo de definir; são o próprio Estado, os amigos do rei, vale dizer, de si mesmos. Os que não se deixam balizar por nenhum poder externo, pois detêm em caráter privativo a função de balizar a sociedade, de fixar e aplicar as normas, com a parcialidade que lhes parece adequada em relação a qualquer assunto e a cada conjuntura.

Do ponto de vista histórico, como aconteceu isso? Ora, sabemos todos que a grande atividade econômica do Brasil colonial era a lavoura canavieira. O consórcio colonial luso-brasileiro deteve o monopólio mundial do produto até meados do século 17. Começou a perdê-lo com a invasão holandesa, iniciada em 1624. Expulsos, entre 1654 e 1661, os holandeses pegaram seus volumosos capitais, a técnica dos engenhos e o respaldo da Holanda, então a rainha dos mares, e foram para a América Central, de onde, num abrir e fechar de olhos, destruíram a hegemonia luso-brasileira. Rápida no gatilho, a camada dominante da lavoura açucareira percebeu que dali em diante sua sobrevivência dependeria mais da política que da economia. E pulou para dentro do Estado, onde até hoje se encontra.

Algo semelhante, mas em menor escala, ocorreu com a extração do ouro e dos diamantes em Minas Gerais, mas o caso verdadeiramente instrutivo é o da cafeicultura paulista. Tendo viabilizado a passagem do trabalho escravo ao assalariado, ela também deteve por algum tempo um quase monopólio do mercado mundial do produto. Não menos importante, como esclareceu Celso Furtado, ela permitiu o surgimento de uma elite muito mais qualificada, capaz de pensar grande e de operar com tirocínio no mercado internacional. Mas a História se repetiu, embora por outros caminhos. A superprodução e a competição internacional não tardaram a aparecer e a brilhante elite cafeicultora o que fez? Reuniu-se em Taubaté, em 1906, e pleiteou também seu lugarzinho no colo do Estado. Nos primórdios da industrialização, a elite nem precisou pleitear nada, pois já nasceu aconchegada na estrutura corporativista montada por Getúlio Vargas, encaixando-se no sindicalismo de empregadores.

Demonstrar que tampouco dispomos de uma classe média capaz de sobreviver com os rendimentos da pequena empresa ou de empregos de boa qualidade é uma tarefa bem mais simples. Poucos anos atrás trombeteamos muito o surgimento de uma “nova classe média”, não nos dando conta de que toda série numérica pode ser subdividida em quantas subséries quisermos, e uma delas será “média”. Uma pena que os limites mínimo e máximo de tal subsérie eram constrangedoramente baixos. Nada que ver com uma classe média numerosa, robusta e autônoma, e é por isso, evidentemente, que temos uma das piores distribuições de renda do mundo: nossa “classe média” é um conjunto vazio entre a pífia minoria que maneja o Estado patrimonialista e a massa de miseráveis à qual tal Estado nem uma escolarização decente proporciona.

E os partidos políticos? Ora, um partido político digno de tal designação tem como requisito fundamental a capacidade de se superpor a interesses demasiado estreitos, balizando-os no sentido do bem comum. Os nossos são incapazes de fazer isso porque no fundo eles não passam disto: são meros grupos de interesse, protagonistas do corporativismo desatinado a que nosso país chegou.

* BOLÍVAR LAMOUNIER É CIENTISTA POLÍTICO, SÓCIO-DIRETOR DA AUGURIUM CONSULTORIA, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS; É AUTOR DO LIVRO "DE ONDE, PARA ONDE – MEMÓRIAS" (EDITORA GLOBAL) 

Dez 30

 

José Antonio Segatto, professor da Unesp

 

 

Há seis décadas, em 1.º de janeiro de 1959, uma coluna rebelde tomou Havana, desencadeando um processo revolucionário. Encetada dois anos antes por um grupamento guerrilheiro em Sierra Maestra, a insurreição levou à deposição da ditadura corrupta e cruel de Fulgêncio Batista (1952-59) e sua substituição por um governo nacional-democrático , a seguir metamorfoseado em regime de cunho socialista, sob a liderança de Fidel Castro.

A sublevação vitoriosa, de fato, só foi possível dado o amplo apoio sociopolítico nas cidades: Movimento 26 de Julho, organizações sindicais e estudantis, partidos liberais e comunista, etc. Entretanto, forjou-se, em seu curso, uma versão mítica da revolução, segundo a qual ela só teria sido exequível pela façanha de um pequeno grupo de destemidos guerrilheiros comandados por Fidel Castro e Che Guevara - este, sobretudo após seu assassinato na Bolívia, em 1967, ganhou aura romântica e foi transformado numa espécie de grife, ícone da juventude rebelde.

Desde o princípio, ressalte-se, a revolução cubana tornou-se inconveniente para os Estados Unidos, cuja reação - compressão, rompimento de relações diplomáticas, financiamento da contrarrevolução (invasão da Baía dos Porcos), bloqueio econômico, etc. - empurrou o novo governo para a esfera de influência soviética.

 

Já em 1961 foi proclamado o caráter socialista da revolução, cujos desdobramentos a impeliram para a reprodução do regime soviético, adaptando-o aos trópicos caribenhos: propriedade estatal dos meios de produção, partido único, abolição dos direitos civis e políticos, coibição do dissenso, estabelecimento de polícia política de monitoramento e coação político-ideológica e da sociabilidade, supressão dos resquícios de democracia. Em consonância a isso o Partido Comunista Cubano (PCC), refundado em 1965, tornou-se partido-Estado. Sua adoção pela URSS, no entanto, com os crescentes préstimos econômicos e militares, políticos e culturais, implicou a instauração de um tipo de socialismo dependente e subsidiado.

Congruente com esse projeto-guia, em 1967 o Estado cubano, secundado pelo Partido Comunista da União Soviética (PCUS) - numa hábil operação política -, fundou a Organização Latino-Americana de Solidariedade (Olas). Objetivando tirar o foco da pressão norte-americana sobre a ilha, deveria ser um instrumento multiplicador de movimentos revolucionários no continente, ou seja, espécie de estado-maior da revolução - apoio político, logístico, financeiro, bélico -, disseminaria focos guerrilheiros na região. Pequenos grupos de elite, vanguarda armada revolucionária, teriam o dever de replicar o exemplo cubano nos diversos países. Da dissidência dos partidos comunistas e de outros grupamentos ou seitas esquerdistas despontaram movimentos guerrilheiros de variadas espécies em países como Guatemala, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Brasil, Uruguai, Argentina e outros.

À exceção da Nicarágua, onde a Frente Sandinista tomou o poder em 1979, nos demais lugares não só malograram, mas em muitos casos resultaram em tragédias políticas e até mesmo humanitárias. A reação brutal de setores dominantes por meio das Forças Armadas, com auxílio americano, criou condições para golpes de Estado e para o estabelecimento de ditaduras atrozes. Caso emblemático foi o do Chile, em que se abria, segundo Eric Hobsbawm, com a eleição de Salvador Allende “a perspectiva emocionante de uma transição pacífica sem precedentes para o socialismo”. 

No caso chileno, a ação cubana desempenhou papel considerável na desestabilização do governo da Unidade Popular. Em 1972, Fidel Castro prorrogou sua visita ao país por um mês, acompanhado por insignes personagens do seu serviço de inteligência, que lá se instalaram por tempo alongado, pressionando o governo e/ou atiçando ações aventureiras de grupos e movimentos esquerdistas.

Além disso, a revolução cubana constitui um marco divisor na história da esquerda na América Latina. Os partidos comunistas que então iniciavam processos de renovação de seus projetos e de suas práxis - valorização da democracia, adoção da via pacífica e processual para o socialismo, abandono de compreensões estagnacionistas - sofreram uma inflexão e se defrontaram com a obliteração de suas intervenções político-institucionais no âmbito do Estado de Direito Democrático.

No momento em que o projeto da Olas já havia dado provas do seu infortúnio e a democracia (re)emergia na América Latina - em coincidência com o colapso do socialismo real e a dissolução da URSS -, o regime cubano, consorciado com o Partido dos Trabalhadores (PT), (re)fundou órgão de articulação no continente sob sua orientação. Em 1990 foi realizado o 1.º Fórum de São Paulo, com a participação de dezenas de partidos e movimentos, grupos e seitas de procedências distintas da esquerda. Tratava-se de substituir a estratégia insurrecional pela luta político-institucional.

A iniciativa teve relativo sucesso nas décadas seguintes, com a ascensão ao poder do bolivarianismo na Venezuela e em países andinos, do petismo no Brasil, da Frente Ampla no Uruguai, do peronismo na Argentina, do sandinismo na Nicarágua, etc. Quase todos eles, porém, com raras exceções, experimentaram a desventura do domínio e do mando em grande medida por não terem compromisso com os valores e procedimentos democráticos.

Se de início, nos anos 1960, a revolução cubana exerceu razoável fascínio, os rumos que tomou com o tempo, no entanto, levaram-na a perder, gradativamente, o encanto - regime de padrão autoritário-burocrático, de feitio castrense , dirigido por uma gerontocracia despótica e hostil à democracia, seu destino foi desventuroso, redundando num socialismo miserável. 

Dez 29

Muito obrigado a você que acreditou no NOVO e fez 2018 ficar marcado na história. Que 2019 venha com muito trabalho, responsabilidade e mais realizações. O NOVO somos todos nós e estamos só começando.

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