Out 19

Jamil Chade

Veja

Criado para zelar pelos direitos fundamentais no mundo, órgão é controlado por ditaduras e governos que ignoram suas responsabilidades na defesa da liberdade. Quem entra pela sala do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, tem de passar por um raio-X, num procedimento parecido ao de um aeroporto. Ativistas, defensores, indígenas, jornalistas e vítimas são convidados a dar garantias de que, ao entrar num local quase sagrado, irão adotar postura digna dos valores que são defendidos naquela sala. Em suas cabeças, um teto multicor criado por um artista espanhol que tenta recriar a gruta de onde sairia a Humanidade.

Seu preço: US$ 30 milhões, numa obra que já passou a ser conhecida como a "Capela Sistina da ONU". Aquela caverna seria a metáfora de uma ágora, o primeiro local de encontro dos humanos, a grande árvore africana sob a qual as pessoas se sentavam para falar e o único futuro possível: o diálogo. Para ter acesso ao "diálogo", porém, a caverna é um dos raros locais na sede da ONU em Genebra que exige tal procedimento de segurança. Claro, o raio-X só não é aplicado para os embaixadores, que entram livremente e gozam de suas credenciais para justificar tal privilégio.

Ao fazer a fila para o controle de segurança e ver como andam apressados os diplomatas sírios, venezuelanos, turcos ou da Coreia do Norte, sempre pensei: que sistema é esse que permite representantes de ditaduras, assassinos e repressores a entrar livremente, enquanto as vítimas são as que são alvo de desconfiança dos seguranças?

Nesta semana, a ONU elegeu os novos membros do Conselho, órgão que serve de guia para a defesa dos direitos humanos no mundo. Mas no bastião dos direitos fundamentais, estarão uma vez mais sentando para tomar a palavra, votar e fazer propostas, justamente as autoridades responsáveis pelos crimes.

Pela África, por exemplo, um dos países eleitos foi o Sudão, marcado por um regime que não aceita abrir mão do poder, mesmo depois da queda de Omar al Bashir. Também terão vaga no órgão Somália e Líbia, dois Estados falidos e com enormes denúncias de violações diárias de direitos humanos. Outro africano na sala é a Mauritânia, acusada de ainda manter 500 mil pessoas numa espécie de semiescravidão. Locais problemáticos como o Togo, República Democrática do Congo e Eritreia também fazem parte do órgão, erguendo com orgulho a placa com o nome de seus países para defender os direitos de milhões de pessoas pelo mundo. Na Ásia, os representantes não são nenhum modelo de democracia e direitos humanos.

Depois de prometer matar traficantes, o presidente filipino, Rodrigo Duterte, conseguiu uma vaga para seu país como membro do Conselho. Bahrein, Catar, Fiji, Afeganistão e Paquistão também estão entre os governos cujo objetivo é zelar pelos direitos humanos, entre eles a liberdade religiosa e a liberdade de expressão.

Nas Américas, nem as denúncias de repressão feitas pela própria ONU, a fome e o colapso das instituições democráticas impediram que os países elegessem a Venezuela de Nicolas Maduro ao órgão. Ao seu lado, estará o governo de Jair Bolsonaro, acusado pelas Nações Unidas de promover um encolhimento do espaço democrático, abandonar os indígenas e outras populações vulneráveis. Mesmo na Europa, países que sofrem fortes denúncias como a Armênia e Polônia também ganharam seu lugar no debate. Varsóvia, ao lado dos tchecos, ainda indica que irá promover uma agenda ultraconservadora no que se refere à família tradicional. Não haveria um problema com tal postura se não fosse pelo fato de que, ao tomar tal caminho, esses governos se recusam a lidar com as violações e abusos que sofre comunidade LGBT.

Parte significativa do Conselho de Direitos Humanos está nas mãos de governos que não passariam em qualquer tipo de critério de respeito às liberdades fundamentais. Mas por qual motivo desejaria um detentor de armas participar de uma marcha pelo desarmamento e pela paz? Ou uma empresa de chocolate promover a luta contra o açúcar? Por qual motivo um violador de direitos humanos gostaria de estar exposto em tal órgão? Existem pelo menos dois motivos. O primeiro é o de se blindar de ataques, votando contra resoluções que o questione e liderando grupos de países para derrubar propostas incômodas. Mas também existe o interesse de que, dentro do órgão, o governo consiga determinar a agenda dos debates e apresentar temas de seu interesse. Não, obviamente, do interesse da vítima.

Hoje, essas ditaduras que buscam um lugar ao Sol contam com as regras ao seu lado: não existem critérios para fazer parte do Conselho. Basta conseguir os votos necessários e, nesta corrida, o que vale é um outro aspecto das relações internacionais: poder. As normas apenas estipulam que cada região deve apresentar seus candidatos ao Conselho. Mas ai o sistema cai em uma armadilha: para jamais ter de concorrer em público contra um vizinho, um acordo é fechado para que apenas seja apresentado o número exato de países para cada uma das vagas a ser preenchida. Assim, não cabe outra solução para a Assembleia Geral da ONU a escolher aqueles que se apresentaram. Sem concorrência e sem disputa para saber quem é que merece estar num órgão de direitos humanos. Quando há uma concorrência, ela é mínima ou apenas de fachada. No caso da América Latina, o governo da Costa Rica se apresentou ao pleito de forma improvisada e faltando poucos dias para o voto. Ainda assim, eram três candidatos para duas vagas. É assim, portanto, que o novo Conselho foi formado e será como resultado dessas imoralidades que os corredores da ONU continuarão a ouvir discursos sem qualquer relação com os crimes que estão ocorrendo.

Com seus carros negros e motoristas esperando na porta, embaixadores mascaram objetivos de poder com discursos e resoluções que exploram o sofrimento das vítimas. E quando sauditas afirmam estar preocupados com a situação das mulheres no mundo, quando o governo líbio garante que age de acordo com a lei, quando Venezuela diz que todos comem no país ou quando Cuba insiste que a democracia está viva naquela ilha, não há ninguém que se levante para protestar e dizer um simples basta. Quando é a vez da sociedade civil falar, são limitados a discursos de apenas alguns segundos cada, e no final do debate para não atrapalhar. Se elevam a voz contra aqueles que cometem crimes, são alertados para que respeitem os códigos do local. Não há espaço para ofensas. Quem sai da linha é expulso e tem sua credencial banida. Afinal, não se pode tolerar o desrespeito.

Há quem alerte que o sistema já faliu. Que não há como respeitar um órgão de direitos humanos com tais membros. Uma das soluções seria a criação de critérios pelos quais os países teriam de cumprir para poder ser eleito. Mas os mais pragmáticos - e não menos cínicos - alertam que se houvesse um critério, difícil seria encontrar um país que mereça estar num órgão de defesa de direitos humanos, inclusive aqueles na Europa e América do Norte. Há quem defenda - e com razão - que a comunidade internacional apenas vai caminhar se os avanços em direitos humanos ocorrerem graças à cooperação, e não a denúncias.

Uma vez mais, porém, essa estratégia é manipulada por governos para retardar ao máximo qualquer tipo de transformação em seus regimes. Serve então tal Conselho para alguma coisa? Provavelmente sim e a prova disso é que essas ditaduras são as primeiras que querem estar presentes para impedir seu funcionamento adequado. No fundo, sabem que aquele órgão poderia ser uma arma fundamental nas mãos das vítimas para envergonhar governos e exigir mudanças. E, justamente para evitar seu funcionamento é que o Conselho hoje é ocupado por ditadores e seus aliados.

 

Com três reuniões por ano, cada sessão do Conselho termina praticamente da mesma forma. A aprovação de resoluções com um impacto questionável sobre a vida das vítimas e uma tradição: uma festa entre todos os diplomatas que vara a noite e que ajuda a descarregar - em copos de tequila, rum ou uísque - a hipocrisia de um teatro diplomático. Quanto às vítimas de sérios abusos de direitos humanos? Bem, elas podem esperar até a próxima sessão.... 

 
Ago 20
Celso Ming, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2019 | 19h00

 

Um dos complicadores para aprovação de uma reforma tributária é a situação da Zona Franca de Manaus (ZFM).

Os principais projetos de reforma preveem cobrança do Imposto sobre Valor Agregado (IVA), que é uma variação do atual ICMS, não mais na origem da mercadoria ou do serviço, mas no destino, como deve ser. Ou seja, paga o imposto não quem fabrica, mas quem consome.

O problema é que os incentivos fiscais destinados à Zona Franca de Manaus correspondem à isenção de impostos sobre produtos lá fabricados. A questão está em saber como se sustentaria a ZFM, a partir do momento em que mudar o regime tributário para cobrança no destino.

 

 

Zona Franca de Manaus
 
A Zona Franca de Manaus recebe em torno de R$ 24 bilhões de renúncia fiscal por ano Foto: Alberto César/Estadão - 12-08-2010

Para o autor da proposta encaminhada pelo deputado Baleia Rossi (MDB-SP), que tramita na Câmara dos Deputados, o economista Bernardo Appy, esta e qualquer outra política de incentivo regional deve prever destinação orçamentária. O Congresso vota quanto dos recursos arrecadados vão para cada projeto e, assim, os subsídios são apontados no Orçamento da União.

O outro projeto que está no Senado, de autoria do ex-deputado tucano Luiz Carlos Hauly, prevê a concessão de um “crédito presumido” destinado a manter a competitividade das empresas da área. A bancada dos políticos do Amazonas parece preferir essa segunda opção.

Mas há uma questão anterior a essa: a da maneira de preservar a Zona Franca independentemente das novas regras tributárias. Trata-se de saber até que ponto vale a pena manter um programa de desenvolvimento que até agora não apresentou resultados.

A Zona Franca foi criada em 1967, no governo militar, com o objetivo de desenvolver uma área imensa, objeto de cobiça de outras potências. Tratava-se, então, de um programa temporário que garantiria a criação de uma indústria local que se encarregasse de proporcionar grande número de empregos e, assim, de emancipar a região. Não foi o que aconteceu. Mesmo agraciada com alto volume de subsídios e de renúncias fiscais, da ordem de R$ 24 bilhões por ano, a maioria das indústrias que lá operam não passa de maquiadoras de produtos importados ou montadoras de peças também importadas, cuja competitividade é fortemente atacada pelo alto custo da logística, especialmente do transporte. Mesmo com todo o empurrão oficial, as exportações são insignificantes. Até mesmo a área de hardware (equipamentos de informática), que exige chips importados, preferiu dispensar os subsídios e se instalar em outros Estados.

O setor não conseguiu criar mais do que 40 mil empregos diretos e indiretos nem garantiu o prometido desenvolvimento sustentável para a região. O que era para ser temporário já tem mais de 50 anos e vai se perpetuando. 

A Zona Franca terá ainda mais dificuldades para se manter a partir do momento em que a abertura da economia para o exterior e a forte redução do Imposto de Importação, prevista nos acordos de comércio, passarem a vigorar.

Em vez de lá manter uma indústria artificial e provavelmente sem futuro, melhor seria aproveitar os recursos fiscais despejados na Zona Franca para um amplo programa de investimentos em infraestrutura e desenvolvimento humano.

Jun 04
Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

 

 

 

O Brasil tem índices alarmantes de evasão e abandono escolar. Em 2017, havia cerca de 10,3 milhões de jovens entre 15 e 17 anos de idade. Desse grupo, 1,5 milhão de jovens não se matricularam no início do ano letivo. E dos 8,8 milhões que fizeram a matrícula, 700 mil abandonaram a escola antes do final do ano letivo. Somado a outras vicissitudes, como as repetências, o resultado deixa muito a desejar: apenas 6,1 milhões de jovens - 59% do total - concluem o ensino médio na idade correspondente. Essa é a média nacional. Se o recorte for feito, por exemplo, entre jovens negros, residentes em áreas rurais do Nordeste e que a mãe é analfabeta, apenas 8% concluíram o ensino médio até os 18 anos.

Esses números não são o reflexo de um quadro momentâneo. Nos últimos 15 anos, não houve melhora no porcentual de jovens entre 15 e 17 anos que estão fora da escola. Apesar de ter crescido o número de jovens que chegam ao ensino médio, houve aumento da evasão e do abandono escolar. A não conclusão do ensino médio tem graves consequências para a vida de cada um dos jovens que abandonam a escola. Além de impor inúmeras limitações ao horizonte profissional, com a diminuição da empregabilidade e de renda, a interrupção prematura dos estudos coloca os adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social, mais expostos, por exemplo, a problemas de saúde, à delinquência e ao crime.

De acordo com o estudo Políticas públicas para redução do abandono e evasão escolar de jovens, de Ricardo Paes de Barros, professor do Insper, a conclusão do ensino médio gera um acréscimo salarial médio de R$ 35 mil ao longo da vida, em relação aos que concluíram apenas o ensino fundamental. Essa diferença é ainda maior nos centros urbanos.

 

Além do custo individual que cada jovem que não concluiu a formação acadêmica sofre diretamente, a evasão escolar produz efeitos negativos sobre toda a coletividade. As evidências mostram que trabalhadores mais qualificados são mais produtivos, atraem mais investimentos e demandam menos gastos públicos com saúde, combate ao crime e bem-estar social.

Utilizando critérios elaborados pelo California Dropout Research Project para avaliar o custo social da evasão escolar nos Estados Unidos, o professor Paes de Barros fez uma estimativa para o caso brasileiro. Os números impressionam. Para cada jovem que não conclui o ensino médio, o custo para o País é de R$ 95 mil ao ano. Desse total, R$ 49 mil correspondem à perda de salário e de produtividade; R$ 18 mil a despesas relacionadas ao crime e à violência (Justiça, sistema prisional e polícia); e R$ 28 mil a questões de saúde (gastos médicos e hospitalares, além da perda resultante de faltas no trabalho por problemas de saúde). Tendo em vista que o contingente de jovens de 15 a 17 anos fora da escola é de 1,5 milhão de pessoas, a perda total para o País chega a R$ 142,5 bilhões por ano.

Como o estudo destaca, a evasão escolar mostra que o aprendizado do aluno é uma questão mais ampla do que a discussão sobre a oferta de uma educação de qualidade. “Reconhecer a distinção entre oportunidades e resultados torna-se imprescindível. (...) O aprendizado (resultado desejado) não resulta de forma mecânica e diretamente apenas do acesso às oportunidades educacionais com a necessária qualidade; o aprendizado também depende do interesse e, portanto, do engajamento dos estudantes no aproveitamento das oportunidades que, por sua vez, não é determinado exclusivamente pela qualidade das oportunidades educacionais oferecidas”, diz o estudo.

O cumprimento efetivo do direito à educação envolve, portanto, avaliar o engajamento dos jovens no processo educativo, “seja porque aponta para a existência de uma oferta adequada e de qualidade dos serviços, seja porque aponta para o cumprimento dos objetivos de desenvolvimento e aprendizado”. Segundo o Panorama Internacional de Avaliação dos Alunos (Pisa), os estudantes brasileiros faltam mais às aulas do que em 84% dos países avaliados. Há, como se vê, muito a fazer na educação, em várias frentes. Planejamento, competência e coordenação são requisitos para avançar.

Jun 04
Bolívar Lamounier, O Estado de S.Paulo

 

 

 

Duvido que algum país tenha um número de irresponsáveis por metro quadrado comparável ao nosso. Baseando o cálculo só no circuito institucional sediado em Brasília, excluindo o resto do País, nossa vantagem sobre o resto do mundo nesse quesito deve ser acachapante.

Para bem aquilatarmos a extensão da coisa, tanto faz começarmos pelo lado grotesco – lagostas, vinhos de qualidade, auxílio-paletó, auxílio-moradia – ou pelo lado teratológico, quero dizer, pelo contingente de 26 milhões de pessoas sem trabalho, por nosso sistema educacional, horroroso nos três níveis, pela corrupção de proporções amazônicas, pela taxa de homicídios subindo de patamar e agora, para nosso infinito espanto, pelo rompimento de barragens causando danos irreparáveis a algumas de nossas mais importantes bacias hídricas. Culpa de Deus? Não, culpa da ignorância técnica, da falta de fiscalização e do desprezo pela natureza e pela vida das coletividades que vivem nas proximidades. A verdade é uma só: a desigualdade social e o desmazelo generalizado estão nos tornando um país estúpido, violento e cruel.

Se nossa renda por habitante crescer 1,5% este ano (o que não é trivial) e essa taxa se mantiver por um longo período, levaremos 47 anos para dobrá-la e alcançar o nível que Portugal já hoje desfruta. Repito: 47 anos. Essa projeção macabra deveria ser suficiente para mudar as atitudes e padrões éticos dos donos do poder. Deveria ser uma espada de Dâmocles obrigando os três Poderes a se levarem mais a sério e a tratar com respeito os 207 milhões de habitantes deste país “abençoado por natureza”. O que vemos acontecer diuturnamente em Brasília dista anos-luz desse mandamento elementar.

 

Só consigo compreender a lerdeza (pirraça, fisiologismo, falta de vergonha...) com que a reforma da Previdência é tratada por grande parcela do Congresso a partir da ignorância de muitos a respeito do futuro que nos aguarda. A referida parcela simplesmente não compreende que essa reforma é apenas o primeiro passo numa dura série de mudanças que teremos que fazer, de um jeito ou de outro. De reformas muito mais drásticas do que essa que temos sobre a mesa poderá depender, quem sabe, até nossa sobrevivência como entidade nacional integrada.

Não me deterei nos prós e contras do governo Bolsonaro, assunto martelado diariamente na imprensa e nas redes sociais. Não sei se ele adotará ou não um estilo consentâneo com a magistratura a que foi alçado e com a gravidade da crise em que os governos anteriores nos meteram. Quero apenas lembrar que a eleição já passou, que os palanques já foram ou deveriam ter sido desmontados e que a presente hora tem de ser de distensão e pacificação, não de mais acirramento.

A História do Brasil não é o oito ou oitenta que tantos se comprazem em trombetear. Erramos muito, mas também acertamos bastante. Tivemos muito azar em algumas ocasiões, mas outras houve em que Deus deu realmente a impressão de ser brasileiro. Veja-se a preservação da integridade territorial, que nos proporcionou esse que talvez seja o maior dos nossos ativos: nossa dimensão continental. É certo que, em nosso caso, a unidade não foi suficiente para alicerçar um mercado interno robusto; seria demais esperar isso no nível de pobreza prevalecente quando nos livramos do regime colonial. De 1930 a 1980, nossa economia cresceu vigorosamente. Naquele período poderíamos ter constituído um mercado interno respeitável e não o fizemos, agora, sim, por uma imperdoável sequência de erros, a começar pelo modelo de crescimento concentrado no Estado, trampolim para a obscena consolidação de uma casta patrimonialista no topo da pirâmide política, reforçada pela trincheira geográfica que Brasília passou a proporcionar-lhe.

Parece-me, pois, que o alfa e o ômega da irresponsabilidade política brasileira é essa incapacidade infantil de perceber o inferno a que inexoravelmente chegaremos se reformas drásticas não forem efetivadas. Um ponto de partida conveniente para quem tiver ânimo e coragem para abrir os olhos é relembrar o que aconteceu nas três últimas décadas do século 19 nos três casos clássicos de “industrialização tardia” – ou seja, na Alemanha, no Japão e nos Estados Unidos. Firmar a unidade territorial e construir um poder central digno de respeito foram a condição sine qua non para constituir o mercado interno, base do crescimento industrial acelerado que esses três países conheceram. A Alemanha, além de uma reforma administrativa admirável, iniciada no começo do século 19, levou a cabo a unificação em 1870. Sob a égide da Prússia e a liderança de Bismarck, os 40 principados então existentes se uniram no que viria a ser uma formidável potência industrial. No Japão, a restauração da dinastia Meiji levou ao poder uma nova elite que rapidamente quebrou o sistema feudal, desarmou a corporação dos samurais, padronizou o sistema educacional em nível nacional e abriu rapidamente o país para o exterior, em busca de tecnologia. Não menos impressionante, nos Estados Unidos a drástica reorientação do sistema educacional no sentido tecnológico, por meio dos land-grant colleges, e a sangrentíssima guerra de 1861-1865 contra o sul escravocrata fincaram os pilares do espetacular crescimento econômico na quarta parte do século.

No Brasil, a dificuldade é escolher qual o melhor exemplo de infantilidade e irresponsabilidade. Minha inclinação é a organização partidária. A proliferação desabrida não seria tão grave se o resultado dela fosse apenas nominal, mas não é o caso: analisada como um número de partidos efetivos, nossa estrutura partidária é, nada mais e nada menos, a mais fragmentada do planeta.

Vinte e seis milhões de pessoas sem trabalho ficam sem saber se é para rir ou para chorar.

*SÓCIO-DIRETOR DA AUGURIUM CONSULTORIA, É MEMBRO DAS ACADEMIAS PAULISTA DE LETRAS E BRASILEIRA DE CIÊNCIAS E AUTOR DO LIVRO ‘DE ONDE, PARA ONDE: MEMÓRIAS’ (EDITORA GLOBAL)

Jun 04
Celso Ming, O Estado de S.Paulo

 

 

 

O mercado de trabalho continua ruim, como os novos números da Pnad Contínua mostraram na última sexta-feira. A desocupação avançou de 12,0% da força de trabalho no trimestre móvel novembro-janeiro para 12,5% no período fevereiro-abril. Há mais 552 mil pessoas desocupadas e o desalento aumentou 4,3%, para 4,9 milhões de pessoas.

Os técnicos ainda festejam o aumento da contratação de 480 mil pessoas (equivalente a 1,5% em relação a fevereiro-abril de 2018) com carteira de trabalho assinada, como se essa fosse a condição para melhora do mercado de trabalho.

 

O emprego formal é o que todos gostariam de ter. Mas especialistas têm lembrado que ficou cada vez mais difícil defendê-lo como condição necessária diante da revolução que atinge todo o mercado de trabalho.

No Ocidente, a expectativa do pleno-emprego com todos os direitos garantidos formou-se depois da 2ª Guerra, quando o mundo passou por forte crescimento econômico e a população global era predominantemente jovem. Com essa mesma base, foi montada a máquina estatal de direitos e benefícios ao trabalhador, organizada em torno do emprego formal.

Previdência Social, seguro-desemprego, seguro-saúde, renda adicional e similares foram estruturas montadas em cima da contribuição do empregador e do trabalhador assim empregado.

Mas as condições mudaram. A população envelheceu e sobrecarregou os sistemas previdenciários. Todo o arsenal de benefícios sociais (welfare-state) ficou caro demais, contratação de pessoal começou a ficar insuportável quando as empresas passaram a ter de concorrer com companhias instaladas na Ásia. O grande avanço da robotização, da tecnologia da informação, da disseminação do uso da internet, dos aplicativos e de tanta novidade mais vai dispensando pessoal. A indústria desemprega gente todos os dias, e grande número de empresas preferiu migrar para países onde o custo da mão de obra fosse bem mais baixo. No Brasil, elas ainda tiveram de enfrentar custos sem mensuração prévia, correspondentes a passivos trabalhistas criados arbitrariamente pela Justiça do Trabalho. Importantes categorias profissionais, como a dos bancários, comerciários, ferroviários, metalúrgicos, têxteis e gráficos vão sendo esvaziadas.

As consequências estão todas aí. Com as exceções conhecidas, em todo mundo sobra mão de obra, os arcabouços de benefícios sociais vão sendo desmontados, os sistemas de Previdência operam com rombos incomensuráveis, o seguro-saúde bancado por empresas passa a ser privilégio de minorias e sobrecarrega os sistemas públicos de assistência médica. Quem não consegue emprego tem de se virar: vai para a informalidade ou para o trabalho por conta própria.

Por outro lado, os sindicatos e aqueles que ainda desfrutam de emprego de primeira linha se aferram à defesa do seu próprio posto de trabalho e saem a combater o que entendem por precariedade do trabalho informal, que querem ver reprimido pelo Estado e pela lei, com todas as forças.

Nessas condições, revoltam-se contra iniciativas que procuram flexibilizar as leis trabalhistas com o objetivo de reduzir os custos de contratação e, portanto, de reduzir o desemprego.

Em outras palavras, continuar a exigir as excelências do emprego formal num mundo em que as condições anteriores estão desmanchando é condenar cada vez mais gente à verdadeira precariedade de um futuro que bate à porta.

Sair por aí para atacar a automação e os aplicativos é agir como os taxistas que querem defender seu território e seus benefícios e, ao mesmo tempo, ignorar as forças e a arrumação da economia que vieram para ficar.

Como tudo isso se arrumará é o que os especialistas em Economia do Trabalho discutem todos os dias. Confiar em que o crescimento econômico, uma redivisão do mercado em escala global e esquemas de treinamento se encarregarão dos consertos é o mesmo que encomendar dança da chuva para acabar com a seca.

Mas um grande passo adiante será dado se os formadores de opinião se derem conta do que se passa na complexa realidade das relações de trabalho e se abandonarem os procedimentos excessivamente defensivos – e reacionários – que seguem recomendando.

 

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